“EU SOU”

Uma reflexão bíblica sobre o Nome de Deus



PE. EVANDER BENTO CAMILO, MPS

(Padre Missionário da CMPS)



     Nesta matéria, queremos fazer uma reflexão bíblica sobre o Nome de Deus”. Na história do povo de Israel, não havia questionamentos a respeito da existência de Deus, mas, num primeiro instante, indagaram sobre qual seria o Seu Nome. Biblicamente, esse nome fez parte de toda vida de Israel, a começar pelos Patriarcas, perpassando pelo período mosaico, profético, até se revelar, por completo, em Jesus Cristo.
Embora sendo um nome misterioso, incomodou e ainda incomoda muita gente. Não obstante, a partir do grande anúncio de Nietzsche de que “Deus está morto”, tudo se tornou válido e permitido, os valores éticos e morais, ou seja, o critério de verdade deu lugar ao relativismo.
Diante disso, questionamo-nos: Como o ser humano chegou a esse ponto? O que influenciou essa mudança drástica na sociedade? Não há dúvida de que, desde sempre, o ser humano afastava-se de Deus, bem como de todos os princípios e valores a Ele relacionados.
Ora, partindo dessa premissa, percebemos que a proclamação da “morte de Deus” trouxe consigo a morte do próprio homem, dos seus princípios e valores. Sendo assim, compete a cada um de nós, homens privilegiados pela capacitação intelectual e liberdade, refletirmos sobre determinadas questões: Será que o ser humano não pensou que, negando a Pessoa divina, isto lhe traria consequências, e que tais consequências afetariam, também, a sociedade como um todo?
     Para refletirmos melhor e encontrarmos argumentos que melhor nos ajudem a satisfazermo-nos com o resultado de nossas indagações, procuramos apoiar-nos nas Escrituras, que, além de estarem mais próximas dos fatos, esclarecem grandes coisas a respeito de nós mesmos, a saber, do relacionamento mútuo de tudo que existe, mas que, ainda, muita coisa continua num mistério.
A Teologia tem como objeto o conhecimento de Deus, ou seja, uma elaboração e uma síntese dos conceitos, conforme fontes teológicas reveladas com suas respectivas conclusões e raciocínios dialéticos. Esse tipo de método, todavia, não se vê no Antigo Testamento, pois o pensamento israelita não desenvolveu a filosofia grega no período bíblico, sendo assim incapaz de elaborar especulações e abstrações. E, ainda, na língua hebraica, o termo “conhecer a Deus” significa um encontro pessoal, isto é, uma pessoa é conhecida realmente quando se conhece seu nome. Esta associação de nome e pessoa não se encontra em nossa língua. No hebraico, como nos ensina Raymond BROWN, o “nome” usa-se em contextos em que os idiomas modernos usam para identificar “pessoa” ou “identidade”. O modo pelo qual os hagiógrafos referem-se ao nome, como nos ensina Dom Estêvão BETTENCOURT,“seja de Deus, seja das criaturas, chama a atenção; só se pode explicar à luz de ideias dos orientais, que o Espírito Santo houve por bem respeitar”.
     No entanto, não ter nome, ou modernamente não ter uma identidade, significa não ter uma existência real; quando se apaga o nome de alguém, consequentemente, a pessoa deixa de existir. Dar um nome, como nos ajuda a refletir Raymond BROWN, é conferir identidade e não meramente distinguir de outros indivíduos ou espécies; quando Deus cria (Gn1), Ele dá um nome a cada objeto de Sua criação. Outorgar um nome é um ato de poder e uma declaração de propriedade ou alguma outra forma de controle. A mudança de nome indica uma mudança de estado ou condição, o começo de uma nova existência. Conhecer o nome é conhecer a realidade mencionada. Por essa razão, o Antigo Testamento reflete o amor por etimologias que, se analisadas linguisticamente, são fantasiosas. O nome é rico em significado; uma conexão mediante paronomásia com uma característica ou ação de uma pessoa revela a pessoa mais plenamente. Por isso, o conhecimento de Deus é manifestado em Seu nome.
      Diante dessa reflexão, algumas considerações, que agora percebemos, vêm justamente como afirmações da intervenção divina e da maneira que se nos encaminha a graça na existência humana, mais propriamente dito, no apostolado a que se sujeita o cristão, pois a vida cristã é dinâmica.
Para melhor compreendermos, importa saber que, no Antigo Testamento, a graça divina era suficiente, eficaz para determinada tarefa, porém, no Novo Testamento, a partir de Jesus Cristo, ela se dispõe de maneira plena, transbordante, na expressão mais autêntica, audaciosa e mais profunda procedente de Jesus, a respeito de quem Ele era. Podemos afirmar que o Deus do Antigo Testamento, na expressão “IAHWEH”, recebe o Nome “Jesus” no Novo Testamento. Tudo que podemos dizer de Jesus o “EU SOU”, expressão peculiar de João Evangelista, é que, a todo momento, Ele quis deixar claro para todos que Ele e o Pai são Um. É, partindo desse pressuposto, que podemos entender porque Ele “é” antes de Abraão e de todos os Profetas. Ignorando esta verdade, estaremos caminhando, sem esperança, no mundo futuro. Blasfemando e querendo jogar pedras em Jesus, é estar longe do entender a própria existência, porque, Jesus, quando abriu e adentrou-se no segredo do Pai, trouxe a cada um de nós, num projeto de redenção, a dignidade de filhos, dando-nos uma identidade. Do “EU SOU”, Jesus fez de nós participantes.
      A fim de ampliarmos mais o horizonte de nossas reflexões e compreendermos um pouco mais da ação reveladora de Jesus, temos que Ele revelou Deus Pai, o mistério absoluto, e nessas palavras: “Quem me vê, vê o Pai”, mostrou Sua Unidade com Ele. Nesta unidade revelada no meio de nós, o mistério vai-se aproximando, cada vez mais, a fim de que Deus fique conosco. Enfim, em tudo aquilo que dissermos, devemo-nos expor ao acontecimento Jesus Cristo, a Revelação, em sentido próprio “EU SOU”, pois, receber a Revelação, é penetrar na realidade de Cristo, no Cristo-evento, e permanecermos nestas palavras: “Cristo em nós” e “nós em Cristo”. Vale, portanto, dizer que Jesus é o “EU SOU, o ALFA e o ÔMEGA”.
 

 

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