“O SEXO COM UM CLIC”

A Dependência Sexual Online e o uso excessivo da Internet



IR. JULIANA VILELA ALVES

(Consagrada da CMPS - Mestra em Psicologia)



     Com o advento de novas tecnologias sempre mais sofisticadas e a crescente e explosiva acessibilidade a Internet, podemos perceber uma mudança profunda na cultura, uma alteração nos modelos de comunicação social e das relações interpessoais.As pessoas parecem dedicar sempre mais tempo da sua vida cotidiana à conecção na web e, a tal propósito, alguns estudiosos estão colocando em evidência como, no cyber-espaço, estão começando a surgir muitas patologias sociais definidas como “dependências tecnológicas”. Entre essas, um setor que merece uma análise mais aprofundada é a dependência sexual e o seu relacionamento com o uso excessivo da Internet. De fato, o sexo é relatado por ser o tópico mais frequentado na Internet, e a busca da satisfação sexual online ou “cybersex” é uma atividade comum entre os usuários da web. (Cf. Freeman-Longo &Blanchard, 1998).
     Geralmente, quando se fala de sexualidade online se refere a todos os modos de utilizar a web a fim de alcançar excitação e satisfação sexual. Tais atividades podem compreender a visão e a troca de material pornográfico ou o frequentar as salas de chat com conteúdo sexual (muitas vezes usando papéis fictícios para explorar seus desejos sexuais mais íntimos), a escrita e a leitura de romances eróticos, o uso da web-cam para atividades eróticas virtuais e a busca de encontros com pessoas que se prostituem. O vício cybersexual é a dependência dessas atividades sexuais virtuais.
     As consequências da cybersex são devastantes: é um vírus que infecta a faculdade mais alta do homem, a mente. No caso da dependência, a imaginação se transforma em uma gaiola que aprisiona seus usuários, tornando a pessoa incapaz de avaliar e decidir de forma crítica, presa de automatismos sempre mais difusos, mas que não vêm quase nunca notados. Porque incide sobre a imagem, a web comunica ao dependente a sensação de poder e disponibilidade que está fechada no mundo real, para se tornar o canal privilegiado da sua agressividade ou a expressão dos desejos inconfessáveis. O cérebro começa a pedir as imagens vistas, porque as imagens pornográficas se tornaram a sua droga. Quanto mais a pessoa se nutre, tanto mais se atrofia, perdendo as suas possibilidades e capacidades mais excelsas. Este vício está na origem da sua decadência, seja ela profissional, relacional, afetiva e pessoal. Os sites frequentados acabam por consumir toda a sua vida, o estudo, os empenhos de trabalho, as relações, a recreação e os interesses. “O dependente tem, de fato, uma dificuldade muito grande de viver a dimensão real, a concentração no trabalho, a estabelecer relações de amor e amizade, e também de recordar as coisas, terminando por perder não somente a memória, mas também a fé em si mesmo” (Ficocelli, S. Troppiporno, non ricordopiùnulla: i film hard danneggianola memoria, in la Repubblica.it, 18 dicembre 2012). A pornografia tem também consequências devastantes sobre o cérebro, de maneira mais invasiva que uma substância tóxica: “A atividade cerebral ligada à excitação sexual se assemelha àquela que acompanha o consumo de drogas. A pornografia não é como uma droga, mas é uma polidroga elaborada endogenamente que fornece resultados sensoriais intensos, mas enganadores” (Reisman, J. (1991). Soft Porn Plays Hardball. Lafayette, Huntington House Publishers. The Psycopharmacology of Pictorial Pornography. Restructuring Brain, Mind, Memory, Subverting Freedom of Speech, www.drjudithreisman.com/archives/pharma.doc). Esse é o motivo pelo qual esta mensagem pode resultar destrutiva também na idade da velhice, do momento em que a queda da potencialidade sexual vem vivida como uma frustração e uma condenação. O corpo, de fato, não consegue mais responder aos desejos da mente – que não conhece a paz dos sentidos! –e os efeitos, a longo prazo, são mais prejudiciais e invasivos. O intelecto encontra assim no virtual um canal potencialíssimo de alimentação e de estímulos que duram no tempo, até tomá-lo por inteiro, perdendo a concentração e a possibilidade de ocupar-se de outra coisa. Esta é a potência, mas também a terrível ameaça da imaginação. A nossa faculdade mais alta, a inteligência, pode, ao mesmo tempo, transformar-se no nosso maior inimigo, levando à destruição da pessoa por inteiro.
     Esta abordagem também explica porque a busca desenfreada de prazer aumenta em vez de diminuir a insatisfação do fundo do indivíduo; na verdade, a gratificação das necessidades ditas "dissonantes", as necessidades que levam o homem a fechar-se aautotranscendência e o deixam em um estado de frustração constante.
     A capacidade estrutural de autotranscendência também está na raiz dos piores excessos do comportamento humano e pode levar à destruição de si mesmo, porque o corpo não tem o poder para bloquear o sujeito nos próprios limites, como é o caso em outros seres vivos. O homem, à diferença dos animais, pode destruir-se, seguindo os seus próprios desejos: os animais, ao contrário, são muito bem regulados nos seus impulsos, a sua agressividade está em função da sobrevivência, não conhecem a perversão, o sadismo, o prazer de matar ou a destruição gratuita que, muitas vezes, caracterizaram os eventos históricos de todos os tempos.
    O altruísmo é a cura para a dependência. A dimensão relacional constitui um ponto central do problema da dependência sexual, mas também a sua possível via de saída. A este respeito, uma ajuda eficaz pode vir do processo terapêutico dos Alcoólicos Anônimos (AA): a consciência de ser de ajuda para alguém se torna um forte impedimento para cair no vício e, sobretudo, para tirar-se a roupa da vítima injustamente maltratada pela vida (que continua a punir-se). Quando a pessoa descobre que é importante para alguém, nota-se que até o próprio sofrimento pode ser transformado, tornando-se uma bagagem preciosa para quem se encontra na mesma situação. O que observa Punzi, repercorrendo o seu lento caminho de desintoxicação da dependência sexual: “uma virada do caminho foi o convite do terapeuta, o qual havia procurado, de fundar um grupo de apoio, uma sugestão que define ‘a primeira ação de contraste real e concreta à pornografia’.” (Punzi, V.Io, pornodipendente. Sedoto da internet, Milano, Costa&Nolan, 2006, p. 33).
     Em geral, o altruísmo e a disponibilidade a partilhar os próprios recursos e capacidades para vir em socorro daquele que se encontra em dificuldade constituem uma ótima forma de prevenção contra a cybersex. Como o prazer, também o significado da vida se consegue quando não o procura diretamente, quando, em outras palavras, se esquece de si mesmo e dos próprios problemas para ajudar os outros com gratuidade. As pessoas têm necessidade de sentirem-se úteis. As dificuldades pessoais não vão ser esquecidas, mas o fato de sentir-se útil dá espaço a uma atitude diferente diante da vida, mais propositiva e menos vitimista, experimentando uma grande harmonia com o outro. Aprender a ocupar-se com o outro pode ajudar a dar realização a esta nostalgia de plenitude. (Cf. Cf. Cucci, G., 2015, DipendenzaSessuale Online: lanuova forma diun’anticaschiavitù. Milano: Ancora, p. 94).
 

 

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