FRUSTRAÇÃO:

Uma necessidade na Construção da nossa História


TALES FREITAS NASCIMENTO, MPS

(Missionário da CMPS - Formado em Psicologia)



Você já se deparou com algum resultado bem diferente de algo que muito esperava? Com reações de pessoas que o surpreenderam? Já alimentou esperanças sobre algo que não deu certo? Algo que você desejava muito e não aconteceu ou não da forma que você desejava?  Quando isso ocorre, estamos diante de um sentimento bem presente e conhecido em nossas vidas: a frustração. São situações que saem de nosso controle, e é bom estarmos atentos em nossas reações, nossos sentimentos e emoções que vêm à tona neste momento, como uma sensação de incapacidade, angústia, raiva, revolta, tristeza, desânimo, entre outros.
Quando temos uma baixa tolerância à frustração, podemos acabar distorcendo as situações pelas quais passamos, deparamo-nos com uma tendência a querer controlar tudo em nossa vida, ou até experimentarmos uma incapacidade de suportar o sentimento de ter que enfrentar estas situações difíceis.
Nossos sonhos, planos e metas nos ajudam a seguir em frente com nossos desejos.Entretanto, hoje, o mundo avança em busca deresultados rápidos, recompensas imediatas, o aqui e agora, queremos que as coisas saem como idealizamos e não aprendemos a lidar com as frustrações e com a espera por resultados, com os limites que não esperávamos encontrar. Você já sequer parou para pensarque existem frutos diante da espera, da mudança de caminhos, da reconstrução de algo?
Muitos pais acreditam que poupando seus filhos de frustrações e realizando tudo o que desejam estão ajudando, mas evitar que “se vivencie frustrações” não faz bem para o desenvolvimento e maturidade de ninguém. É algo que se deve aprender desde a infância. Aceitar os fatos como suscetíveis de acontecer diferente do que esperávamos gera crescimento em nossas habilidades e confiança. Não veremos estes resultados se não passarmos pelo processo de maturidade que eles exigem.
Os pais, antes de amigos dos filhos, são seus educadores e devem ensiná-los que o errar e o fracassar fazem parte da vida, que nem tudo está sob nosso controle, que todo erro traz aprendizado, que nenhum esforço foi inútil. Uma criança muito protegida, que não é estimulada a dar passos por medo de não conseguir, que não recebe limites, que tem os desejos imediatamente satisfeitos, pode ter dificuldades em compreender a realidade, e desenvolver crises quando adulto, por razões mínimas que vivencia, ou se sentir inconstantemente insatisfeito.
Essas consequências também podem alcançar os matrimônios. Não é surpresa o fato de separações e divórcios acontecerem por esses motivos. As pessoas têm tolerado cada vez menos as frustrações que fazem parte da vida conjugal, pois se estabelece um vínculo afetivo com o outro, e ninguém é perfeito. Assim, a vida dos relacionamentos têm sido cada dia mais breve (Martino). Em pouco tempo, o casamento acaba sendo desfeito, por não saberem suportar frustrações, por quererem ser satisfeitos e não pensarem na satisfação do outro, no bem dos dois.
A frustração tem o poder de estimular a nossa imaginação e mexer com os sentidos, pois cria insatisfações, e, quando não estamos felizes com a situação, tomamos a iniciativa de mudar as coisas, de fazer de outro modo (Berard). Ela faz você pensar e assim criar um novo caminho para uma determinada situação, ou notar que é melhor parar por aí. Isso nos faz experimentar a nossa competência, a nossa capacidade, e, depois de superarmos este momento, conseguimos nos ver mais forte do que pensávamos.
Há pessoas que vivem uma vida inteira frustradas por quererem ser o que não são, e assim acabam sufocando e não desenvolvendo a riqueza que trazem em si mesmas. Quando aprendemos a lidar com a frustração, há uma percepção mais profunda de nossos limites, de nossos excessos, o que necessita ser incentivado, preservado ou lapidado.
Também em nossa vida espiritual, muitas vezes nos “frustramos com Deus”, culpando-O pelos nossos sofrimentos. Queremos tudo no nosso tempo e não aceitamos a vontade Dele em nossas vidas. Esquecemos que de Deus só vem o bem, e, mesmo diante dos erros dos homens e dos sofrimentos que estes causam, Deus está agindo em nossa vida, e quanto mais damos acesso, mais Ele pode fazer por nós, em favor da nossa saúde, ou seja, em favor da nossa salvação! Há uma ação fecunda do Espírito Santo, mesmo que para nós pareça que nossas expectativas estão sendo frustradas, todavia, há vida sendo gerada e não percebemos. Não percebemos as pequenas ações de Deus em nossa vida, porque estamos muito voltados para nós mesmos, para o que nós consideramos o melhor, e assim, não confiamos em Deus, quando algo escapa ao nosso controle.
Nossa visão está comprometida por nossa superficialidade. A experiência de aceitar a frustração é um momento de oportunidade, de crescimento, de nos construirmos como pessoas. Passar por uma situação frustrante não significa fracasso.
Como poderemos desenvolver a paciência, a empatia, a força, a superação, se nunca enfrentamos as situações que geram esses frutos?
Frustrarmo-nos com algo não é um ponto final, e sim uma vírgula, que pede continuidade, que nos traz um conteúdo para seguirmos em frente. Escolhermos um caminho ou outro é uma tarefa que sempre demandará grandes esforços. A maneira como lidamos com os nossos fracassos determina quem somos e o que esperamos para nossa vida.

 

 

 

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